SEGURO
DE AUTOMÓVEIS
O PASSADO, O PRESENTE E O FUTURO DO PERFIL.
ATENÇÃO:
DESCONTO PARA JOVENS!
Paulo
E F Botti(*)
O
grande distanciamento tecnológico da área
de seguros do Brasil em relação a outras
economias, em grande parte devido ao monopólio
do resseguro, fez com que a precificação
do seguro de automóveis permanecesse durante
muitos anos baseada somente nos dados do veículo
(marca, tipo, ano etc) e em sua região de uso.
Somente
há poucos anos, os dados do motorista passaram
a ser considerados no momento de calcular o preço
do seguro.
O
modelo brasileiro inicial foi baseado em metodologia
européia, graças a informações
obtidas por executivos brasileiros em um congresso
promovido pela IBM, em Paris, em meados da década
de 90.
A
primeira grande seguradora brasileira a implantar
no cálculo de preço do seguro de automóveis
fatores que levavam em conta dados do motorista usou
uma metodologia bastante simples, da qual as únicas
variáveis eram a idade e o sexo.
A
nova sistemática foi muito criticada, por complicar
a venda, por obrigar a fazer mais perguntas
ao segurado e por dificultar os sistemas
de cálculo e foi apelidada depreciativamente,
principalmente pelos que não tinham interesse
na sua evolução, de seguro sexual.
Com
o tempo, a metodologia foi sendo absorvida, aprimorada,
incorporando a experiência brasileira obtida
na prática e a experiência internacional,
principalmente americana, trazida por consultorias
internacionais.
Novamente,
os críticos desta nova metodologia atacaram,
alegando que os executivos das companhias de seguro
que a desenvolviam ou apoiavam estavam jogando
dinheiro fora.
Com
o tempo, o aprimoramento foi sendo aceito e mesmo
os que a criticavam passaram a apoiá-la, porque
sua evolução era irreversível
e, principalmente, porque ela passou a mostrar resultados.
Evidentemente
a operação de cálculo de prêmio
com a introdução do perfil
ficou mais sofisticada e, como diziam os críticos,
mais complicada, exigindo mais tecnologia
das companhias de seguro.
A
situação atual mostra que as companhias
de seguro mais evoluídas tecnologicamente e
mais bem aparelhadas, em termos de estatística
e informática , tiraram melhores proveitos
dos benefícios da nova forma de aceitação
e precificação de seguros automóveis
e tem no momento, uma carteira de automóveis
de alta qualidade e resultado superior aos concorrentes.
Uma
parte das companhias, de porte médio e pequeno,
também não ficou para trás e
através de serviços de terceiros, de
consultores externos e de sistemas de informação
desenvolvidos por empresas especializadas, estão
no caminho de também tirar proveito desta nova
metodologia.
Mas
e agora, o que virá?
A
introdução do perfil mostrou que os
jovens, principalmente do sexo masculino, apresentam
para o seguro de automóveis um grau de risco
muito superior à média.
Um
rapaz de 18 anos chega a apresentar o dobro do risco
de um adulto de 30 anos. Um jovem de 20 anos o dobro
do risco de um adulto de 40 anos.
A
precificação não foi feita nestas
proporções, pois inviabilizaria a compra
de seguros para os jovens.
Uma
parte da conta ainda é paga pelos segurados
de mais idade.
Mas
sem nenhuma dúvida, o preço dos seguros
de automóveis para os jovens cresceu enormemente,
na grande maioria das companhias de seguro, com a
introdução do perfil.
Esse
aumento de preço faz com que boa parte dos
jovens deixe de fazer seguro ou o faça com
companhias que ainda não utilizam o calculo
do preço levando em consideração
o perfil do motorista.
Esse
êxodo, provavelmente dos jovens de menor risco
dentro do segmento de jovens, começa a preocupar
as companhias de seguro.
Entretanto
o problema maior não é este.
Para
muitas companhias o real problema não é
nem ao menos conhecido.
Em
poucos anos estes jovens já não serão
tão jovens e passarão novamente a ser
interessantes para as companhias de seguro e portanto
procurados por elas.
Como
eles reagirão?
Sendo
o seguro de automóveis um seguro altamente
sensível a preço, a primeira resposta
que ocorre às companhias de seguro é:
Não
me importo em perdê-los agora. Quando eles forem
mais velhos, e bons riscos, voltarão para mim,
pois eu terei então um preço competitivo
para oferecer a eles.
Será
isto verdade ou as companhias devem pensar em outra
estratégia?
Pesquisa
mencionada na Bests Review, edição
de outubro de 2003, sobre a lealdade de jovens a suas
companhias de seguro feito pela The Geek Factory,
empresa americana especializada em marketing e relações
publicas para o segmento de jovens, sugere para as
seguradoras o seguinte procedimento em relação
aos jovens:
Segure-os
agora, e tenha-os para sempre. Eles estão formando
suas impressões sobre as marcas agora. Mesmo
que o seguro esteja sendo pago pelos pais, ou mesmo
que não esteja sendo feito, a percepções
estão sendo formadas agora, e quando for o
momento de sedimentar um relacionamento, eles trarão
com eles suas percepções sobre as marcas.
A
pesquisa, entretanto vai além, e mostra que
o assunto é mais intrigante ainda, pois não
se restringe à disputa do atual segmento de
jovens, nem do segmento que será formado daqui
a poucos anos pelos atual segmento de jovens:
A
importância desta discussão envolve grandemente
a disputa do atual segmento de adultos, irmãos
mais velhos, pais, tios, parentes e outros adultos
de alguma forma relacionados com os atuais jovens.
Para
comprovar essa afirmação a pesquisa
mencionada cita a enorme e crescente influência
que os jovens têm exercido sobre o comportamento
dos adultos:
Os
jovens tem hoje um dramático impacto nas decisões
de consumo de seus pais, como locais de férias,
compra de carros, produtos de maior tecnologia, etc.
E eles gostam de ser ouvidos pelos adultos!.
Se
tudo o que foi dito até agora for verdade,
seria muito bom para as companhias de seguro estar
bem com os jovens!
Infelizmente
não é o que parece estar acontecendo.
Pelo contrário, as restrições
de aceitação, o maior preço,
as ofertas para atrair os mais velhos e outras indicações
passadas pela maior parte das seguradoras, fazem com
que elas não estejam bem com os jovens
e a maioria não parece preocupada com isso.
Como
sair dessa?
Em
primeiro lugar a companhia precisa concordar que deve
sair dessa. Existem inúmeros argumentos
para não concordar. Afinal os acidentes automobilísticos
estão no topo da lista dos maiores causadores
de danos corporais aos jovens entre 13 e 19 anos.
Como também já dissemos, os jovens formam
o segmento de maior risco para o seguro de automóveis.
Seria muito fácil, portanto, continuar numa
política de simplesmente afastar os jovens
daqui!.
Evidentemente
essa é uma política de curto prazo,
que deu certo nos primeiros anos de precificação
por perfil, mas que agora tem que ser mudada, sob
pena de comprometer o futuro da companhia.
Essa
mudança deverá passar por três
caminhos.
O
primeiro parece ser a IDENTIFICACAO DE BONS RISCOS,
refinando os estudos de risco, procurando, dentro
do segmento de jovens, os sub-grupos que por alguma
característica própria apresentam uma
melhor experiência estatística.
Provavelmente
e infelizmente este refinamento deverá apontar
que os melhores riscos são os que estão
deixando de fazer seguro.
Alterações
nas políticas de aceitação e
precificação devem ser feitas para a
manutenção em carteira destes jovens
e para a atração de novos jovens com
o perfil desejado.
O
segundo caminho é o de FORMACAO DE BONS RISCOS,
com programas encorajando os jovens a desenvolver
bons hábitos na direção de seus
veículos. A contrapartida para os jovens que
aderirem é a possibilidade de menor preço
do seu seguro. As companhias não devem acreditar
que seus programas irão realmente mudar o comportamento
dos jovens. O segredo provavelmente estará
no fato de que os jovens que optarem por aderir a
qualquer programa de desenvolvimento de bons
hábitos ao volante já são
naturalmente riscos melhores!
Por
fim, o terceiro caminho parece ser o dirigido ao futuro,
A PERCEPÇÃO DA MARCA, a tentativa de
transmitir ao jovem que, apesar dele ser um mau risco,
nós gostamos dele. Este caminho
envolve campanhas dirigidas ao jovem, mesmo ao jovem
que pela idade ainda não pode dirigir, mas
que, quando puder, já terá a percepção
de que existe uma companhia que fala a língua
dele e que gosta dele, apesar de cobrar um pouco mais
caro.
Evidentemente
nestas campanhas não pode ser esquecido que
são eles os maiores usuários da Internet
e a Internet é para eles cada vez mais o maior
instrumento de decisão de compra, superando
a televisão.
Em
resumo, a evolução da forma de precificação
do seguro de automóvel não pode parar
sob pena de comprometer o futuro das companhias de
seguro.
Nessa
evolução, o tratamento dado aos jovens
é prioritário, o trabalho pode ser feito
por companhias grandes, medias e pequenas e envolve
sistemas de informação, tratamentos
estatísticos e, sem dúvida, muito marketing.
(*)
Paulo E F Botti é Ex Vice Presidente Executivo
da Itaú Seguros SA, Sócio-Diretor
da Pama Consultoria (associada a G5 Solutions) ,
Sócio-Diretor da Redecar/Revisar Engenharia,
Inspeções e Administração
de Sinistros.
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