Ano II - N° 7
Brasil, setembro de 2003. 

Tecnologia e Acesso ao Conhecimento

José Luiz Goldfarb(*)

    Em todo o mundo as empresas públicas e privadas desencadeiam ações voltadas ao benefício social. Talvez possamos afirmar que após algumas décadas de uma cultura demasiadamente individualista no século XX, o novo milênio inicia-se sobre o signo do compromisso social. O terceiro setor avança em nossos dias de forma exponencial e o Brasil com seus problemas seculares e crônicos é ainda um terreno mais fértil para este movimento global.

    Podemos então indagar qual o papel que as novas tecnologias ocupam neste momento fundamental de nossa história. Muitos falam da exclusão digital e que na verdade as novas tecnologias só agravaram os problemas antigos. Num primeiro momento poderíamos sentir-nos seduzidos pela verdade da tese da exclusão digital, mas quero aqui argumentar na direção contrária.

    Iniciamos com uma analogia. No princípio dos tempos modernos, ainda antes da revolução industrial, ocorreu o nascimento da imprensa, da publicação em série com o uso dos tipos móveis. Na verdade, não foi exatamente uma invenção, pois a Europa realmente importou a técnica do Oriente, da China. Mas sem dúvida houve um fator de escala que fez uma grande diferença. Partindo do continente Europeu, os livros impressos espalharam-se pelos quatro cantos do mundo e a terra nunca mais foi a mesma.

    As publicações das sociedades científicas inicialmente nacionais e posteriormente mundiais realizaram a primeira globalização da modernidade, a intercionalização da pesquisa científica. Os resultados das investigações tornaram-se papers de circulação global. E assim todos os tipos de livros tornaram-se acessíveis a populações num ritmo crescente. Podemos afirmar que com o livro moderno ocorreu a primeira onda da popularização do conhecimento que modificou a face do planeta desencadeando as sucessivas revoluções científico-tecnológicas.

    Com as novas mídias digitais muitos decretam a morte do livro. Novamente quero discordar. Se o livro foi a primeira onda, a mídia digital será sem dúvida a segunda onda de popularização do conhecimento e da cultura, e que trará em seu bojo a própria popularização do livro e da leitura.

    Primeiramente, observamos que é através do próprio espaço virtual que as comunidades começam a atingir amplos espaços organizativos que acarretam ações sociais efetivas. O exemplo recentemente divulgado no Brasil, no último 11 de setembro, propondo-se a troca de um livro pelos espaços da cidade é conseqüência da experiência do site bookcrossing que demonstra com milhares de usuários, a força do que estamos afirmando. São os exemplos iniciais das possibilidades que ainda estamos por descobrir. Ações na área da educação à distância via internet, também permitem antever grandes revoluções no acesso à educação, liberando a grandes e distantes populações o ensino antes acessível a poucos eleitos.

    Trabalhar inovações tecnológicas pode parecer, dentro de um enfoque limitado e imediato, apenas um re-direcionamento estratégico que gerará bons lucros nas vendas. Mas pode também significar o início de grandes transformações na sociedade que podem novamente modificar profundamente o mundo em que vivemos. Temos ao alcance de nossos dedos poderosas ferramentas para realizarmos ações sociais efetivas. É missão daqueles que trabalham com as novas ferramentas continuar o movimento iniciado com a invenção do livro.

(*) José Luiz Goldfarb é professor da PUC/SP (Programa de Estudos Pós-graduados em História da Ciência e Tecnologia e Mídias Digitais - graduação), Assessor de Gabinete/Secretaria de Estado da Cultura (coordenador do Conselho Estadual de Leitura), Coordenador do Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira do Livro; Diretor Geral de Cultura d' A Hebraica.
E-mail: jlgoldfarb@sp.gov.br ou israelbr@dialdata.com.br