Tecnologia
e Acesso ao Conhecimento
José
Luiz Goldfarb(*)
Em
todo o mundo as empresas públicas e privadas
desencadeiam ações voltadas ao benefício
social. Talvez possamos afirmar que após algumas
décadas de uma cultura demasiadamente individualista
no século XX, o novo milênio inicia-se
sobre o signo do compromisso social. O terceiro setor
avança em nossos dias de forma exponencial
e o Brasil com seus problemas seculares e crônicos
é ainda um terreno mais fértil para
este movimento global.
Podemos
então indagar qual o papel que as novas tecnologias
ocupam neste momento fundamental de nossa história.
Muitos falam da exclusão digital e que na verdade
as novas tecnologias só agravaram os problemas
antigos. Num primeiro momento poderíamos sentir-nos
seduzidos pela verdade da tese da exclusão
digital, mas quero aqui argumentar na direção
contrária.
Iniciamos
com uma analogia. No princípio dos tempos modernos,
ainda antes da revolução industrial,
ocorreu o nascimento da imprensa, da publicação
em série com o uso dos tipos móveis.
Na verdade, não foi exatamente uma invenção,
pois a Europa realmente importou a técnica
do Oriente, da China. Mas sem dúvida houve
um fator de escala que fez uma grande diferença.
Partindo do continente Europeu, os livros impressos
espalharam-se pelos quatro cantos do mundo e a terra
nunca mais foi a mesma.
As
publicações das sociedades científicas
inicialmente nacionais e posteriormente mundiais realizaram
a primeira globalização da modernidade,
a intercionalização da pesquisa científica.
Os resultados das investigações tornaram-se
papers de circulação global. E assim
todos os tipos de livros tornaram-se acessíveis
a populações num ritmo crescente. Podemos
afirmar que com o livro moderno ocorreu a primeira
onda da popularização do conhecimento
que modificou a face do planeta desencadeando as sucessivas
revoluções científico-tecnológicas.
Com
as novas mídias digitais muitos decretam a
morte do livro. Novamente quero discordar. Se o livro
foi a primeira onda, a mídia digital será
sem dúvida a segunda onda de popularização
do conhecimento e da cultura, e que trará em
seu bojo a própria popularização
do livro e da leitura.
Primeiramente,
observamos que é através do próprio
espaço virtual que as comunidades começam
a atingir amplos espaços organizativos que
acarretam ações sociais efetivas. O
exemplo recentemente divulgado no Brasil, no último
11 de setembro, propondo-se a troca de um livro pelos
espaços da cidade é conseqüência
da experiência do site bookcrossing que demonstra
com milhares de usuários, a força do
que estamos afirmando. São os exemplos iniciais
das possibilidades que ainda estamos por descobrir.
Ações na área da educação
à distância via internet, também
permitem antever grandes revoluções
no acesso à educação, liberando
a grandes e distantes populações o ensino
antes acessível a poucos eleitos.
Trabalhar
inovações tecnológicas pode parecer,
dentro de um enfoque limitado e imediato, apenas um
re-direcionamento estratégico que gerará
bons lucros nas vendas. Mas pode também significar
o início de grandes transformações
na sociedade que podem novamente modificar profundamente
o mundo em que vivemos. Temos ao alcance de nossos
dedos poderosas ferramentas para realizarmos ações
sociais efetivas. É missão daqueles
que trabalham com as novas ferramentas continuar o
movimento iniciado com a invenção do
livro.
(*)
José Luiz Goldfarb é professor da
PUC/SP (Programa de Estudos Pós-graduados
em História da Ciência e Tecnologia
e Mídias Digitais - graduação),
Assessor de Gabinete/Secretaria de Estado da Cultura
(coordenador do Conselho Estadual de Leitura), Coordenador
do Prêmio Jabuti da Câmara Brasileira
do Livro; Diretor Geral de Cultura d' A Hebraica.
E-mail: jlgoldfarb@sp.gov.br
ou israelbr@dialdata.com.br